Duas mães, uma babá, um bebê e quatro crianças de quatro anos chegando atrasadas no teatro. Assim que nos acomodamos vi sair da boca de Miúda em uma lindíssima melodia: chega perto/sei que vou te machucar/pode parecer cruel/mas não posso evitar. Daí percebi que no palco não tinha um cenário infantil e que não haviam efeitos especiais. E Miúda continua cantando e tocando sanfona (ou seria um acordeon?): me desculpe/não quero te ver sofrer/mas meu coração tem fome/e precisa te comer.
Meu deus, para onde eu tinha arrastado aquelas oito almas? Sem esquecer outra amiga que ia levar a filha para ver o cenário da barbie num shopping e eu “sugeri” a peça! Onze almas naquela platéia arrastadas por mim! Que loucura! Mas a descrição do caderno cultural me pareceu uma peça infantil! Esperei os acontecimentos, ansiosa pelas cenas de humor, de música e de mágica… Mas logo percebi que não ia rolar… Adorando a peça, esperava pelas vozes das meninas: “tá chato, quero ir embora”. Esperei, mas não ouvi.
Miúda gosta de ficar no banco em frente de casa observando o movimento e catando formigas para sua planta carnívora (falante) que seu amor perdido deixou de lembrança. Miúda recebe as visitas do carteiro, seu Zé, e da vizinha, dona Inércia. Seu Zé tem medo de ser comido pela planta e Inércia adora o gosto adocicado de jasmim que fica no dedo depois a planta morde. Miúda olha para baixo, é míope e tem uma coleção de guarda-chuvas. De tempos em tempos, dois velhotinhos entram sapateando, conversam sobre a “falta de perspectiva” que têm da vida e saem sapateando!
A peça é linda e música é maravilhosa, mas estes temas seriam adequados para crianças desta idade? Pense numa peça louca… Pense que te intriga… Que te questiona… Curti os sessenta minutos de teatro com um sensação mista de “que massa” e de “que merda”… Quando vi minha amiga se levantar e fazer uma saída rápida pela esquerda, o sentimento de “que merda” aumentou… Mas não dava para sair, nossos lugares estavam longe da saída, teríamos que incomodar toda a platéia e todo o elenco… E as meninas estavam entretidas no texto, eu só não sabia por quanto tempo!
Terminada a última cena, as palmas e os agradecimentos dos atores, descemos, cumprimentamos Miúda e saímos… Perguntei: e aí, gostaram? As respostas foram surpreendentes: adoooooooramos! em coro. Uma gostou da planta, outra do vestido de Miúda, outra de Inércia com os patins e a outra dos suspensórios do velhote que sapateava. E foram comentando os acontecimentos…
A peça é louca, mas a peça é infantil, sim. Não só elas, mas quase todas as crianças ficaram e sorriram. Meu preconceitos adultos não podiam me deixar perceber o que naquela peça podia chamar a atenção das crianças. Mas a diversão pode ser introspectiva, porque não? Nos acostumamos a achar que alegria só pode ser a do carnaval, a das cores vibrantes, a da música alta, a do ritmo frenético, a das luzes fortes. Elas gostaram da peça. Elas perceberam a beleza da melancolia, a doçura da dor, a sutileza do texto, a discrição das sombras, o cuidados dos figurinos e a graça de Miúda, que olha para o chão, que não consegue ver, que mantém lembranças, que é melhor não ter.
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