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da série: mãe pasma

18 set

mãe pasma número 1:

mãe explicando para a filha de 4 anos porque existe calcinha infantil (de desenhinho) para adulto:
- é porque deve ter uma monte de adulto querendo ser criança…
a filha então pergunta:
- e você, mamãe, também quer ser criança?
a mãe tomada por boas lembranças de um tempo sem cheques para cobrir, sem contas para pagar, sem decisões para serem tomadas, responde num tom nostálgico:
- eu queria filha, eu bem que queria!
e a filha taxativa, retruca:
- é, mamãe, mas a vida é assim!
(…)

mãe pasma número 2:
(…)
- a gente nasce bebê, fica criança, depois adolescente e adulto, então fica velho e morre!
a mãe não resiste e dispara um “se tudo der certo, né?”
- é, mamãe, se tudo der certo!
depois de uma breve pausa:
- mamãe, você sabia que tem bebê que morre?
- sei, filha!
- tem uma tribo que vive muito muito longe, que fica isolada, que os índios comem os bebês, vc sabia!
estupefata a mãe responde:
- não, filha, não sabia!
(…)

mãe pasma número 3:
(…)
- minha filha, índios que comem bebês? quem te disse isso?
- ninguém, mamãe, estudei isso! sei disso por causa das pesquisas…
- em que fonte? (tradução para criança de 4 anos: de que livro, da escola?)
- não foi de livro, não! foi na informática: fizemos uma pesquisa no GOOGLE!

Gente, como assim GOOGLE? Ela nem sabe ler e faz pesquisa no GOOGLE!

de repente um choque

25 mai

Desde a oitava série descobri que queria ser publicitária. Achava que queria: na verdade queria construir marcas – talvez fosse melhor ser designer. Já na faculdade “errada”, comecei a achar que não tinha talento suficiente para ser diretora de arte… E fui migrando para atendimento e marketing. Mas na verdade comecei a me desinteressar pelo mundo fútil da propaganda, pela mediocridade e pelo falso glamour do mercado baiano e passei a me questionar sobre os objetivos daquela profissão: vender produtos e ideias, faria melhor quem entendesse de mentes e almas e conseguisse capturá-las.

Confesso que não consegui prosseguir, daí me voltei ao setor público: nunca me interessou o “fazer de uma comunicação” voltada para a “lógica do mercado”. Sempre foi um incômodo a falta de atenção aos verdadeiros interesses públicos (seja ele o público consumidor para o mercado ou o público eleitor para o governo e os políticos).

Por outro lado, via a propaganda com a linguagem atraente, objetiva e focada em resultados, filmes geniais, anúncios belos e inteligentes, capazes de fazer qualquer querer um comprar um sobretudo para usar a 23 graus.

Esta podia ser uma ferramenta fantástica para a formação e educação, para a melhoria da cidadania e do nosso “projeto civilizatório”. O único problema é: QUEM faria uma comunicação deste tipo?

Como eu disse, me afastei da comunicação em 2002 e desde então meu olhar recai sobre a ação governamental e sobre os dilemas vividos por técnicos e políticos (por incrível que pareça) interessados e comprometidos em melhorar resolver problemas e atender demandas. Desde então, venho fazendo planejamento, programando orçamentos e acompanhando ações do governo estadual – com relativa tranquilidade.

Isto até 2007, quando voltei à comunicação: agora governamental – e tão (ou mais) irritante quanto a privada. Desde então, volto a viver meu dilema: sei que fiz uma universidade que é minha cara, mas não me presto a trabalhar com que aprendi.

Este dilema foi solucionado por enquanto – graças às minhas novas companheiras de sala. A pergunta que fiz acima QUEM? foi respondida em parte: a COMUNIDADE. Tenho a convicção que sem a influência da sociedade o governo falha, desde 2002 buscamos ferramentas para que a sociedade participe da administração pública, a comunicação comunitária autêntica (não vale de igreja, nem de político – que têm a comunidade apenas no rótulo), por ser feita por, com e para a comunidade.

Num lampejo, entendi o que eu “uma publicitária frustada” estava fazendo numa “repartição pública”.

Agora sonho com uma comunicação de interesse público feita pela comunidade em cada recanto deste país. Sonho com outorgas sendo concedidas de maneira célere, webrádios sendo ouvidas em lan house e CDCs interior a fora, redes sociais sendo criadas e difundidas. Sonho com o povo falando e escrevendo – mesmo que com erros de ortografia e concordância – sobre seus problemas, suas demandas e sobre as soluções que encontraram juntos.

De quebra, encontrei meu objeto de estudo: a autêntica comunicação comunitária voltada para valores de cidadania e de engajamento. Este “fazer coletivo” pode ser utilizado não como instrumento de manipulação, mas de animação social. Assim, conceitos da linguagem publicitária, antes voltados para criar necessidades, vender produtos e idéias, poderiam ser utilizados para produzir a “tal” participação social.

Daqui a uma ano, se eu me mantiver por aqui, conto os resultados de uma pesquisa que vou iniciar em breve. Vou num lugar onde tem cidadania, engajamento, união, soluções para problemas crônicos e históricos pensadas e executadas de maneira coletiva, para ver se a comunicação comunitária teve alguma coisa a ver com isso. Se tiver estarei feliz, se tiver, talvez – quem sabe, volte a acreditar em deus e na humanidade.

Porque, leitores, neste momento só acredito no planeta e no Sicof – este sim com ‘s’ maiúsculo.

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